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anotações e porcarias empilhadas em preto e branco


17 de agosto, 11h41min

Lendo Ledusha na praça da Fernando machado e esperando para almoçar no Beverly.

Aniversário do meu irmão


Avó e mãe falam sobre a menina pequena que ia subir no escorregador:

ela vai

vai sem medo 

de se machucar

tem que ser valente

não pode ser frouxa

se ir

não vai chorar

devagarinho


26 de agosto

gosto: surpresa regalia privilégio nome na lista carona convite mimo tiração ficar sem ar gargalhada longa desenrolar segredo fofoca lembrança fotografia coleção


27 de agosto

desgosto: atraso refrigerante cobrança peso obrigação regras repetir assento sem encosto janelas que não abrem enrolação tendência escolher e perder ferida bala pra garganta falar em público



7 de setembro
eu quero morrer
eu quero viver
e cuspir
no meio da rua
na quarta-feira de cinzas
no sete de
setembro
abrir a boca 
até desencaixar
o coração é mole
a cabeça é oca
o raio de sol
cruza o meio da rua 
fora da faixa de
pedestres

16 de setembro
mapa mental: círculo de jantar seta de ansiedade círculo de beijo seta longa círculo de pensamento seta que volta pra jantar seta círculo de conversa seta para beijar seta círculo clima interrogação seta conversa, círculo cumprimento a distância seta círculo sorriso amarelo

23 de setembro
estava meio vazia assim lisa-lisa e então fiquei cheia como quando se põe a mão nos grãos de feijão no saco do mercado e eles caem por entre os dedos

28 de setembro
hoje eu e e e mas apesar de eu não vou mais por enquanto, por favor não peça além de até eu voltar da beijos até breve!

1 de outubro
e os cinquenta reais que gastei no fim de semana comprando um livro de poesia pechinchado, vou comer a semana toda


3 de outubro
eu morri e ninguém fez uma pergunta do tipo como era o lugar que morei na infância ou como são meus pais melhor porque não conseguiria responder nem ao menos com o que eles trabalham por medo de se tornar verdade

Veronica Stigger!


Ela tem a idade da minha mãe e escreve coisas absurdas, violentas e engraçadíssimas. Trocando emails com Igor, o editor de uma zine que acompanho e participo regularmente, mando esse poema e outros, que são como uma colagem, perguntando se devo manter ou não as referências. Ele responde dizendo que gosta da ideia de manter as referências, que lembra um exercício de uma oficina de poesia via email que fez e o envia junto:

E se hoje você abrisse mão da ideia de que escrever 
é a ação de preencher um arquivo em branco?

Neste primeiro exercício simples, comece a pensar a produção a partir de algo que já existe. Roube as conversas de pessoas ao seu redor. Transcreva uma cena da novela que seu avô assistia. Substitua a caneta por tesoura e cola. Faça um corte na sua rotina. Você pode versificar tudo exatamente como foi dito, inspirando-se em Ana Luiza Rigueto, ou justapor frases de origens diferentes para criar diálogos desconfortáveis, como Verônica Stigger. Se a ironia parece um caminho mais interessante, talvez você tenha mais proximidade com Wisława Szymborska, e combine ideias diferentes na busca de novos significados ou acontecimentos.


E isso foi em setembro de 2024. Eu pesquisei cada nome citado e achei esse segredo da poesia que fazia tanto sentido comigo. Com conversas alheias anotadas em segredo durante uma viagem de ônibus, frases soltas que ouvia na rua e sempre repetia e ria muito com os amigos e o intertexto que resultava em alguns escritos.  A minha favorita da lista foi Veronica, conexão instantânea! (Ela também é gaúcha.) Rapidamente achei Delírio Damasco, um livro curto de poeminhas de 3 linhas, só com coisas que ela escutou por ai. Comecei a fazer o meu próprio arquivo de conversas roubadas. 


Li também O Coração dos Homens, e ela já estava na minha lista de escritoras favoritas. Ficou ainda melhor quando na livraria perto de onde trabalho achei o livro, O Sul, onde saiu o poema e descobri que depois do poema tem uma parte com folhas lacradas com o título, A Verdade Sobre o Coração dos Homens. O livro novo era uma fortuna e dei sorte quando encontrei o mesmo no sebo, do outro lado da livraria e ainda com as páginas lacrados por R$ 20,00. Com as mãos abri delicadamente o picote: ali outro poema que explicava o que era mentira e o que era um cruzamento de fatos do poema principal. 

A poesia é a parte meiga da escrita de Veronica, os contos muitas vezes me deixam agoniada, aterrorizada, enojada, imoral, desmaiada na realidade do mundo, com a cabeça aberta e com muita vontade de rir fazendo uma cara feia. 

 

Como disse da última vez, Os Anões, foi um livro que chegou ate mim pelas forças do destino. E assim como Delírio Damasco e O Coração dos Homens, eu fiz todos ao meu redor lerem. Agora, meu objetivo é fazer uma adaptação cinematográfica B do conto Ceia, que já foi lido em voz alta por diversos amigos meus. Ana Banana será Joana, Freak Franco: Juan, Gordo Celso: Jean, Chico: está em aberto, talvez Matheus, namorado de Nicoli e o garçom é Carlos. Vamos filmar no Beverly Hills, restaurante do pai do Carlos, Pedro vai ajudar com o roteiro e produção e Thomaz vai fazer os efeitos especiais já que ele quase sabe assobiar com os dedos na boca. 

Gran Cabaret Demenzial é minha última aquisição, comprei também no sebo mas dessa vez no Bom Fim, do outro lado do parque. Esse é Anões são da Cosac Naify, mas todas as edições são muito bem pensadas e bonitas. Ainda não terminei de ler pois estou guardando e gosto de ler pela manhã quando tem bastante sol no quarto. 

Desde que comecei com tudo isso tenho imaginado e pensado em coisas muito absurdas e porque elas parecem tão distantes. Ontem assisti uma peça chamada A Cantora Careca, clássica do teatro do absurdo, coisa que descobri ontem também que era um movimento muito famoso e fez muito sentido com outras que já havia visto. Esse texto sem sentido e divertido que diz muito de forma tão maluca e inventiva. A patafísica. O esdrúxulo. A poesia. A vida. 

monte bello

minha prima é
apaixonada no vizinho do 84

ela imagina
arte de Valfré
se ele dorme exatamente no mesmo quarto que ela
três andares exatamente acima
se a cama dele fica
exatamente onde a dela
se ele toma café da manhã na varanda da cozinha
às 7h
se é ele que
joga cigarros
que caem no vão da janela da sala

ela descobriu o nome dele no crachá do Estado
enquanto o secava no elevador
e em qual apartamento ele mora
na vaquinha para o presente de Natal do zelador

ela sabe que a mãe dele é produtora de cinema
e lésbica
que é carioca
e o principal
muito alto

eu deveria

comprar uma câmera
fazer análise
correr
passar fio dental
me atravessar na frente dos carros da avenida perimetral
prestar atenção em tudo que minha mãe fala
arrumar a cama
experimentar maconha
lavar as roupas delicadas a mão
não comer doce
eu deveria
usar salto
falar de amor e sexo
saber a hora que nasci
concordar com meu pai
fazer massagem
guardar dinheiro
comprar um guarda-roupa
dar antipulgas a gata
tirar carta de habilitação
ser questionada
ter a moral pura
devolver a carteira
comprar leite
ter um sobretudo
usar sutiã
esperar a minha vez
apostar e ganhar
desentupir a pia do banheiro
falar bem em público
arrumar a cama
não chegar atrasada
ter sempre um gloss a mão
ler um clássico
me bronzear
fazer cirurgia para não precisar mais usar óculos
passar uma semana trancada numa sala sendo observada por estranhos
chorar quando triste
sair sem pagar
ir a um encontro a cegas
viajar no feriado
viajar sozinha
andar descalça
me perder no mato
fazer aula de francês
dar dinheiro ao pedinte
andar de bicicleta na orla
dar duas voltas na tranca da porta
dormir sem calcinha
andar na montanha-russa invertida
fazer uma visita surpresa
ficar um dia sem falar
visitar o túmulo do meu avô
passar o fim do ano na praia
me afogar no mar
saber o que é prolixo
ir a missa
rezar o pai nosso
ser um anjo
só falar a verdade
saber descascar laranja
escrever na rua
fazer a unha
só andar em ônibus vazio
não beijar
ter uma sombrinha
ter um leque
tomar chá gelado com mel
vomitar quando cheia
só dormir em cama de casal
tomar anticoncepcional
esquecer meu primeiro amor
ir ao dentista
aprender a dizer não
não deixar nada para última hora
não comer por impulso
tomar café preto
estar sempre atenta
dormir por um dia inteiro
soprar tão forte que os carros voassem quando eu atravessasse a rua no horário de pico

fracassos no infinitivo

Ill in Paris - Lucian Freud

por que estou fazendo isso? Fracasso em
manter o meu trabalho em ordem para que
eu possa encontrar as coisas
pintar a minha casa
conseguir dinheiro suficiente para eu viver
reorganizar a casa para que eu
consiga pintar a casa &
encontrar as coisas e
conseguir dinheiro suficiente
para fazer livros
ter tempo
para responder a correspondência & os telefonemas
limpar as janelas
tornar a cozinha melhor para o trabalho
ter dinheiro para comprar um rádio comum
para escutar enquanto trabalho na cozinha
saber o suficiente para fazer o trabalho de adulto no mundo
transcender a minha atitude
em relação a uma pobreza imposta
esperar que os meus cheques
cheguem na hora certa por correio
não esperar sempre que não chegarão
esquecer as atitudes da minha mãe sobre a humildade ou
continuar assumindo-as sem sofrer
esquecer como minha mãe azucrinava meu pai
sobre dinheiro, e minha irmã não posso revelar
fracasso em esquecer a mãe e o pai o suficiente
para crescer, em esquecê-los
esquecer meu tio obsessivo
lembrar deles de outro jeito
lembrar seu preconceito com precisão
parar de sonhar sobre leões que é o mesmo
que sonhar com les, eu pus a minha mão dentro da boca do leão
amenizar sua raiva, isso não é um fracasso
perceber que era assim que estavam; fracasso
em transplantar as flores
ser organizada
criar & preservar as superfícies limpas
deixar o sofá ou a cadeira ser lugares onde possamos nos sentar
em vez de mesas
der a mesa ser um lugar para comer & não uma escrivaninha
ouvir mais música popular
aprender as letras das músicas
não precisar de dinheiro
para que eu possa escrever o tempo todo
não precisar pagar o aluguel ou as contas de telefone
esquecer as mortes prematuras dos pais do tio
ficar livre da expectativa de ser cuidada; fracasso
em amar os objetos
de achar que eles são valiosos de algum jeito; fracasso
em preservar os objetos
comprá-los e agora deixá-los de lado; fracasso
em pensar nos poemas como objetos
pensar no corpo como um objeto; fracasso
em acreditar; fracasso
em não saber nada; fracasso
em saber tudo; fracasso
em lembrar como se escreve fracasso; fracasso
em acreditar no dicionário & que há qualquer coisa
a ser ensinada; fracasso
em ensinar direito; fracasso
em acreditar no ensino
pensar que todo mundo já sabe tudo
que não é meu fracasso; eu sei que todo mundo sabe; fracasso
em ver que nem todo mundo acredita nesse tipo de saber e
pensar que não podemos durar até alçarmos o conhecimento
lavar a louça, só leva dez minutos
escrever mil poemas em uma hora
escrever um épico, abrir a janela imunda
permitir você sabe quem chegar e
afastar os pensamentos e poemas das preocupações
apenas nos assegurar que vamos fazer isso
pintar os seus tetos & paredes de graça


poema de Bernadette Mayer
(Bernadette Mayer Reader, 1968 - traduzido por Luiza Leite)

eu queria ser bonita e superstar


Ontem teve Festa da Zine. Melhor edição até agora. Terça a noite eu gastei o que vinha guardando e fiz uma coisa que realmente gosto e foi ótimo. É uma zine que é uma folha só, meio cartaz e  do outro lado, poema de retalhos. O formato veio de uma zine que peguei numa feira que é só uma folha A4 vermelha com vários poemas e escritos dobrada e o poema em si, veio de um exercício que fizemos na aula de texto semestre passado, de juntar falas de outras pessoas. Lembrei dele e comecei com a primeira coisa que ouvi quando decidi fazer.

  1. eu sei que eu nasci pra saber
  2. eu não sou como imagino
  3. vou dar um tempo,
  4. preciso distração
  5. as vezes cansa minha beleza
  6.  essa falta de sensação
  7. e de emoção
  8. cada um por si e
  9. Deus contra todos
  10. hey girl what you're gonna do?
  11. querida superhist
  12. repita comigo:
  13. "eu mereço lingeries novas"
  14. secretamente friday
  15. i'm in love
  16. ser esmagada por um piano
  17. que caiu do ultimo andar
  18. do edifício
  19. baby pare de querer
  20. e desejar you don't know me
  21. bet you'll never get to know me
  22. at all
  23. e vou assim
  24. e vou assim
  25. e venho assim
  26. uma cidade toda feita contra ela
  27. eu só minto na hora exata da mentira
  28. o jeito é acreditar:
  29. acreditar chorando
  30. mudei de ideia
  31. eu digo
  32. ate nunca mais
A ideia de tudo começou com fazer uma zine cartaz. A semana inteira minha prima anda falando como eu sou bonita, mas de uma forma que até me sinto mal de ouvir... e nesse dia mesmo ela olhou nos meus olhos e disse isso de novo e eu comecei a pensar em como me sinto constantemente horrorosa e penso como tudo seria diferente se eu fosse bonita, como se deve ser. 

Algumas coisas nesses últimos meses tem me deixado mais confiante com meu trabalho dentro e fora da universidade, e isso é bom e parece que essas coisas vão bem. Essa semana uma professora perguntou se queríamos estar na história da arte. Sim, eu quero demais! E me fez lembrar da Macabéa, que tem sido uma personagem constante nos meus pensamentos, e em como eu queria saber tocar algum instrumento ou só ter ritmo ou noção suficiente para fazer um barulho interessante. Ainda tem minha banda fictícia, conceitual com a Joana: Lucinha chupa-sangue. Seguindo na música tem esse desenho que acho que é do ano passado ou retrasado que fiz de uma foto do Sleater-Kinney, uma banda riot grrrl de 1994. 

O poema é quase todo de letras de músicas, que estava ouvindo na hora e que fui lembrando. Fiz sem pensar e no fim da folha, quando decidi que estava pronto, li e achei que era isso. Perfeito! Numerei cada frase para explicar a referencia de cada parte. 

1. Agora só falta você - Rita Lee
2. Pensamentos e anotações meus...
3-7. Fruto Proibido - Rita Lee
8-9. Anotação, acho que ouvi na rua
10. Hey girl what you're gonna do? - Jupiter Apple
11. Querida Superhist X Mr. Frog - Júpiter Apple 
      Descobri recentemente que Superhist é um remédio pra gripe, dor, febre, nariz entupido...
12-13. Frase que tem em uma vitrine do centro, e também inspiração pra uma música da Lucinha
14-15. Friday i'm in love - The Cure e pensamentos
16-20. Pensamentos e anotações; Edifício Baby é um prédio verde claro curioso que fica entre o campus central e o Instituo de Artes
20-22. You don't know me - Caetano Veloso
23-25. Tinindo trincando - Novos Baianos
26-29. A hora da estrela - Clarice Lispector
30-32. Mudei de ideia - Rosinha de Valença

Tudo isso também me recorda de uma entrevista do Tom Zé que vi uma vez (e nunca mais achei!!), onde ela conta que uma música, a qual não lembro, era toda roubada, porque cada verso vinha de outra música de outra pessoa. Viva a apropriação, a destruição e a criação!

poesias que não são minhas

Essa insegurança de escrever e não ler e de escrever e não mostrar e de escrever e sair correndo. Eu, eu, eu. Mês passado li O Apanhador no Campo de Centeio, e é esse tipo de coisa que gosto de ler. Será que vou gostar de histórias da juventude, melancolia, segredos, aventuras, descobertas, crescer... pra sempre? Agora estou lendo Nove Histórias, do mesmo autor. É uma coisa diferente mas mesmo assim ele sabe muito bem como escrever pra mim. Em Nove Histórias preciso investigar toda a história para compreender o que se passou ali, e isso me prende. Depois de cada conto fico um tempo matutando e depois vou ler uma análise, teve um que li um artigo inteiro sobre. A verdade é que fazia tempo que não lia ficção literária, a universidade só trás coisas ou muito científicas ou muito conceituais e eu não sei como aguentaria essas 3 semanas de férias sozinhas sem todas essas histórias. 

Tive uma idéia para uma zine ou sei lá onde escrevo tudo pelo celular, lá as coisas tem sempre mais chance de sairem erradas porque as letras são pequenas e os dedos são do tamanho que os dedos devem ser, essas duas coisas não estão em equilibrio como os teclados de verdade. Não reviso, não reescrevo, não corrijo e junto tudo em uma coisa com imagens e depois de tudo pronto esta pronto. A proposta seria ver o que podemos ler dali, mesmo com coisas com letras trocadas e ou com palaras quase indecifravéis. Ver o português instrumental em prática. Os acontecimentos que inspiraram isso foram a troca de mensagens entre mim e minha prima, ela nunca se esforça para corrigir qualquer mensagem que envia pra mim e se eu não a conhecesse talvez nem saberia o que esta escrito, as coisas são naturalemente criptografadas. Com a minha mãe e parecido, mas mutuo, e não tão secreto. Depois ainda veio esse texto da Esteph onde ela é tão real que não muda nada e as letras embaralhas deixa tudo ainda mais próximo de nós, do que ela esta vivendo. 

Acompanho umas indicações de livros e poesias do Beavis and Bookhead e é sempre uma graça. O momento para para que eu leia com toda a calma até o último verso. Recentemente também descobri a zine digital Felisberta, que reune autores ainda vivos e escrevendo, em edições sazonais. Recomendo fortemente a leitura da última edição, de inverno, que trás poemas do Diego Elias, responsável pela Beavis and Bookhead. Salvei alguns poemas que conheci através desses dois lugares:

adília lopes entra

1.
adília lopes
liga pro cabeleireiro
da simone weil

2.
adília lopes
dança noise depois
fode

3.
adília lopes
na void
dizendo quero lá saber
que sejam inteligentes artistas sexy sei lá o quê

4.
adília lopes
sai do mar maiô e sal
cintilando

5.
adília lopes
por enquanto
diverte-se

Ana Luiza Rigueto 

Essa me lembra muito a letra da música Fátima Bernandes Experiência do Skylab. Mas também me faz pensar na faculdade e nas pessoas, em mim, e em quem é Adília Lopes? Um diário de acontecimentos do vídeo-filme. 

finesse & fissura

melindre da língua
fetiche do meu verso que aflora
minha finesse que finda
minha delicatesse que míngua
minha fissura que implora

Ledusha

 

O último poema

Assim eu quereria o meu último poema

Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamnates mais límpidos
A paixão dos suiccidas que se matam sem explicação

Manuel Bandeira

 

e
ntro
no banho
para evitar
minhas lágrimas
afinal chorar no chu
veiro é chover no molhado
oooooooooooooooooooooo
ooooooooooooooooooo
oooooooooooooo

Giovana Bezerra

socorro

socorro fiona apple
tem um quarto sobrando aí
levei um pé na bunda homérico
e achei que você entenderia a situação
pedi demissão e com a grana
do seguro desemprego
comprei passagens pra cá
trouxe livros de poesia brasileira
posso traduzir pra ti
ana martins marques é a melhor
vem vou começar
the book of resemblances

Pedro Cassel

 

Além de tudo queria registrar aqui:

⭐ a importância das notas pela zine NOTAS 2 de Livia Deboni
⭐ muitos poemas e pensamentos interessantes de Piovepato
⭐ poesia colagem em Bricando com a boniteza da língua portuguesa pt.3 de Luiza Heuko (indico todas as partes!)
⭐ o inferninho de Brida Abajur
⭐ o desenho no ínicio, onde esbocei um mini poema que fiz para a Xis em umas cartas que trocamos. 

prece


rezar para santo em que não se acredita
dançar música que se detesta
jurar amor eterno
trapacear
mentir
ludibriar
implorar
pagar
apelar 
rastejar

escrito no diário em algum dia de abril de 2023
assim ficou formato de taça sokdofkdp

go gol

oioi
praia surf rock
plapla no teclado
almoça comigo quinta-feira
goldmine
fala assim
amaro
wild honey
put your head on my shoulder
andar de ônibus
de carro
a pé
luzes se apagam
onde está dona Celi?
a união do vegetal
as perguntas que começam com
vou te fazer uma pergunta pessoal
e
qual a tua opinião sobre
deitar no parque
olhar o céu
abismo da vida
o mundo como bagagem
a gravidade
sorri
sorriso
bobo
não para de confessar
que me viu aquele dia
primeiro dia
na fila
ontem
me diga
3 músicas minhas
canta pra mim
com tua voz de veludo
me lembra
me liga
como peixinhos a nadar no mar


*Escrito em 24 de novembro de 2022 nas notas do celular.

minha língua tem gosto de inseticida


Desisto 
de tudo 
me afundo 
nos lençóis 
me arranha 
os pés
me dói  
aperta 
estrangula
sufoca
pilão
quente 
limão
por que 
é
solidão

gato de vestido

poesias da escola

ilustração Sola! (1900) de Emilio Longoni Precisei escrever poesia aldravista para a disciplina de literatura. Essa, é um tipo de escrita que surgiu em Minas Gerais nos anos 2000, precisa possuir diversas formas de interpretação, e deve haver apenas seis versos. Cada um com apenas uma palavra. Além disso tinha que fazer uma poesia crônica. Nessa me perdi um pouco, e acho que não fiz certo. 

sem nome I 
bife
de
fígado
é
muito
ruim

Triste 
mel
colhia
as
pessoas
das
abelhas

Confinado
não
consigo
respirar
trancado
aqui
dentro
Fugir 
ir para longe
só ver azul e verde
da janela

acordar com sol
no rosto

escrever bonitas cartas
dobrar origami
selar para sempre
todas as orações
que já foram
certa vez
únicas

eu gosto de tomate

ilustração de Jonatan Cantero

Escarlate longa vida
Italiano
Cereja
Verde e frito
Eu gosto de tomate
direto do pé
na temperatura ambiente
sem conservante
livre de 
tóxicos 
sal
e vinagre

 pra saber mais do projeto