Estou na minha casa de férias a 12 dias, amanhã volto para o barulho. Adeus tédio, conforto, cabeça vazia, mercado grátis, pia com água quente, secadora de roupas, andar despreocupada pelas ruas, ócio, box de vidro do chuveiro gigante, luzes baixas, Soneca, minha mãe e esperar Pedro vindo do bairro mais longe de todos de bicicleta para assistir filmes escondido no confortável sofá da sala.
Dia 14 de julho, a outra terça-feira, foi meu último dia de miopia. Fiz cirurgia a laser e quase tudo que li sobre é verdade: não dói, é rápido, cada olho é um olho e a cada dia tudo pode mudar. Hoje estou vendo bem, de perto, de longe está borrado e o pior são as telas luminosas, digitar no computador é torturante. Penso em daqui um mês, quando o epitélio voltar todo ao lugar, e fazer tudo isso não tiver adiantado nada. Coloco rapidamente meus óculos antigos e já me não serve mais, acredito com mais vigor.
23 de julho
Vivi como madame. Lavei e esfoliei o rosto, protetor solar e gloss de algodão doce. Camisa quase risca de giz e óculos escuros. Experimentei sapatos de vinil. Almocei no melhor restaurante buffet da cidade. Fiz as unhas: vinho cremoso. Comprei ovos caipira e encontrei minha tia (inimiga da minha mãe), me contou fofocas e mil coisas. Revi minha prima que faz 15 anos no próximo mês. Fiz bolo de fubá (deu errado). Busquei as meninas na escola (minhas primas de 10 e 8 anos). Mostrei meus brinquedos de quando era criança, uma videoarte que usei as vozes delas. Encerramos tomando chá e comendo bolo.
25 de julho
Amanhã vou ver uma peça que quero ver desde o ano passado e o universo nunca deixava. Daqui um pouco mais de um mês vou ir na super festa de formatura da Joana no Clube. Vai ser incrível! Nesse semestre vamos gravar vários filmes, nossa versão do Drácula no mundo das minissaias, o filme do Pedro que é inspirado na minha festa de aniversário, no Gregg Araki, no Caio Fernando Abreu e em toda a galera gente boa zumzum yeahyeahyeah e claro, nas nossas próprias histórias vividas e ouvidas. Vamos organizar mais um festival de videoarte, mais uma edição da zine do amor, mais um amigo secreto de Natal, mais um jantar chique a luz de velas, mais um o que for, Quando eu voltar tudo vai acontecer. Na primeira semana de julho eu fiz tudo que deveria ser feito e estava querendo zarpar como um balão sem nó para as férias e todas as belezas do litoral. Eu apresentei a parte I do meu trabalho de conclusão e me animei com a academia. Esta sendo divertido e misterioso fazer isso. Fui produtora da exposição no Paço que fizemos em uma das disciplinas e meu professor deixou eu dirigir o carro dele por alguns segundos (imagine: eu sentada no carona e sem carteira de motorista [apenas aulas breves e esporádicas com meu pai], meu professor de óculos escuros e todo de preto, três colegas [incluindo minha melhor amiga Joana, que rezava] no banco de trás.
Fui em várias peças de teatro com a Joana. Fizemos uma noite de degustação de drinks para a formatura dela e também fomos numa degustação muito chique com pratos que vinham com cloche (também para a formatura dela). Pedro fez bolo de fubá na minha casa porque ele não tem forno na casa da capital. Fizemos um café da manhã na hora do almoço na segunda-feira porque é quando o Carlos não trabalha no restaurante e o Pedro fez o famoso bolo de chocolate com whiskey e butter toffee. Saímos para fotografar num domingo feio e frio e vimos a beleza das cores.
Eu tenho medo de a vida não ser doce e acida ao mesmo tempo, das flores murcharem e de chover todos os dias, eu tenho medo de nunca mais poder ver como antes, de perder tudo, de me queimar e me arrepender de coisas que não fiz.

