Sábado 10h e tanto da manhã fui ao Sebo Café Riachuelo enquanto esperava o horário do trabalho. Prateleira de literatura gaúcha, onde da outra vez li todo o Mulher no palco, da mesma autora, puxei As parceiras. Lya Luft, avó da minha veterana da faculdade, é implacável ao dissecar a condição humanada, bafejados que somos pela morte, desejosos de vida, perdidos nos labirintos de nosso próprio inconsciente – vinha escrito atras do livro e me convenceu a abrir.
A história é dividida em capítulos, que são os dias da semana iniciando no domingo. Li todo o domingo e já era a hora de ir embora. Fiquei em dúvida se abandonava o livro, na esperança de ir lendo aos poucos contando com a sorte dele não ser comprado, ou se levava. Levei porque uma parte lembrava minha melhor amiga J (sobre a melhor amiga da personagem principal) e outra lembrava minha mãe (sobre a mãe da personagem principal). Custou R$ 15,00. Agora falta os últimos dois dias para ler, sexta e sábado.
Lya traduziu Virginia Woolf, quem li muito pouco. Ganhei de aniversário uma edição de Mrs. Dalloway que esta na lista de leitura e imagino que seja como o filme Cléo da 5 às 7, ou qualquer filme de aventuras de um dia só da nouvelle vague. Eu adoro filmes de aventuras de um dia só. Adoro chegar em casa tarde depois de um dia de aventuras e surpresas e dormir profundamente. As vezes esqueço de descansar e então preciso viajar e dormir dias inteiros. Também me lembrou um pouco de A redoma de vidro.
Lya escreve de uma forma um pouco confusa, e eu gosto disso, me lembrou As meninas, de Lygia Fagundes Telles (que viveu 20 anos a mais). Talvez porque no inicio eu não a conhecia e comecei a imaginar que toda a história era sobre ela e então deveria ter coisas secretas não ditas. Mais tarde no mesmo dia, perguntei a neta e descobri que era tudo ficção, que ela era muito tranquila.
Aqui algumas coisas que grifei do livro até então.
[...] Livro aberto sem ler. Eu adivinhava que minha mãe não estava lendo, que nem distinguia ao certo realidade e ficção, sem se interessava pelos enredos, misturando tudo. Às vezes, quando ela me pegava olhando-a assim, sorria como se fossemos duas meninas cúmplices de alguma travessura. Um grande segredo, mas eu nunca soube que segredo era aquele.[...] Grãozinhos de olhos, bocas. As bocas pálidas que ninguém iria mais beijar.[...] Uma doida bonita, asseada, mansa, escrevendo e murmurando entre rendas e alfazema. Não fazia mal a ninguém.– Presunto! – exclamou como se eu estivesse nua na cama.E, diante do meu olhar desafiador, virou-se e saiu batendo a porta.[...] A solidão era tão pesada que meu coração ia rebentar, que bom se tudo estourasse feito uma bolha de sabão, um avião explodindo no ar, um corpo de menina batendo nas pedras pretas lá embaixo. [...][...] Sempre tivera nojo até de botar a mão em carne crua. [...][...] a distinção entre o bem e o mal não era assim tão simples. [...] eu preferia o mal. Mais verdadeiro, pelo menos. [...] E eu nunca me aproximara muito de Deus: medo de descobrir que, em lugar dele, nada havia senão duas velhas caspentas jogando no tabuleiro em que as sombras corriam, saltavam, caíam, devoram-se. A gente acendendo velas, como um desesperado, as bruxas soprando com força.Mas Deus não se ligava muito aos meus medos [...]Momentos roubados, por isso intensos, coração em descompasso, sangue inquieto. Pura vertigem. E a sensação de que tudo tinha de ser rápido, não havia tempo. [...][...] Quis morrer de amor aquele instante. Tão bom morrer: porque eu me sentia imortal, podia desafiar a morte.[...] Ao menor esforço, vou me desfazer em mil pedacinhos [...][...] Eu não perguntara, estava entretida amando, vivendo, esquecendo. [...][...] como um canibal que devora partes do próprio corpo. [...][...] ando sozinha demais, que me deito demais, na rede ou na cama, que penso demais. Pensar tanto faz mal. [...][...] deitar-se para sofrer menos, refugiada nas lembranças para não ter que decidir a vida [...][...] nunca me faz confidências. [...] fala, ri, passeamos, fazemos compras, mas não penetro no seu quarto secreto. Antes dele há um corredor comprido, escuro, prantos escondidos. Todo mundo com medo. Ela não terá alguém com quer trocar segredos [...][...] amado-odiado [...][...] com sua cama de cabeceira de cetim branco, sem amante. Eu, no meu chalé cansado e rangedor. Essa veranista, em cima do morro.[...] Expulsei todo o medo fazendo amor delirantemente. [...][...] e então poderia botar a língua para todas as tristezas novas e antigas [...][...] Desejo intensamente que ele corra o bastante para escapar de qualquer lance mau.[...] Como se começa a desacreditar [...]


























