olê olê olá


 Se Deus é com Lula, quem será contra?

Viajei para votar, o ônibus é cortesia das eleições. Fui boba em pensar que a rodoviária estaria como da última vez, a fila de 20 minutos nos quatro guichês especiais. Ainda bem, agora todo mundo sabia que não havia impedimentos de distância e a rodoviária estava em festa, todos os guichês emitiam passagem grátis e as filas eram tão longas que criavam um labirinto dentro do terminal. Cheguei 10 minutos antes da saída do ônibus que pretendia pegar, chovia torrencialmente. Mais cedo havia almoçado feijoada com minhas amigas, incluindo Paula que também estava ali para viajar. Ela desistiu de cara e comprou a passagem. Eu, que detesto perder uma oportunidade, pedi para passar na frente da fila. A fila preferencial, ainda por cima, que me deixou pegar a passagem. O ônibus deles não saia, para o que naquele momento já era daqui cinco minutos e com uma certa esperança estampada no rosto eles alertavam que seria preciso sair correndo o mais rápido possível. Logo eu, que sou especialista em pegar ônibus em cima da hora na rodoviária, que já perdeu ônibus com essa mesma confiança e deu um jeito de usar a passagem pro próximo. Muita sorte, pouco juízo. Eu acredito. Sim! Sim! Sim! Voei e ainda faltava dois minutos. O ônibus vazio, devia ter menos de 10 passageiros. Sentei no meu lugar favorito, bem na frente, onde todos os lados tem janela e da para se espichar. Ninguém atrás, ninguém dos lados. Assisti dois episódios de Sex in the city. Caminhei na garoa até em casa. 



Estou com um bom pressentimento sobre o futuro. Foi uma avenida inteira cheia em Porto Alegre. E toda a organização online e tudo. Não vi uma única foto na internet que fosse o oposto, alegria que a volta é vermelha!! 

luft grifos

Sábado 10h e tanto da manhã fui ao Sebo Café Riachuelo enquanto esperava o horário do trabalho. Prateleira de literatura gaúcha, onde da outra vez li todo o Mulher no palco, da mesma autora, puxei  As parceiras. Lya Luft, avó da minha veterana da faculdade, é implacável ao dissecar a condição humanada, bafejados que somos pela morte, desejosos de vida, perdidos nos labirintos de nosso próprio inconsciente –  vinha escrito atras do livro e me convenceu a abrir. 

A história é dividida em capítulos, que são os dias da semana iniciando no domingo. Li todo o domingo e já era a hora de ir embora. Fiquei em dúvida se abandonava o livro, na esperança de ir lendo aos poucos contando com a sorte dele não ser comprado, ou se levava. Levei porque uma parte lembrava minha melhor amiga J (sobre a melhor amiga da personagem principal) e outra lembrava minha mãe (sobre a mãe da personagem principal). Custou R$ 15,00. Agora falta os últimos dois dias para ler, sexta e sábado. 

Lya traduziu Virginia Woolf, quem li muito pouco. Ganhei de aniversário uma edição de Mrs. Dalloway que esta na lista de leitura e imagino que seja como o filme Cléo da 5 às 7, ou qualquer filme de aventuras de um dia só da nouvelle vague. Eu adoro filmes de aventuras de um dia só. Adoro chegar em casa tarde depois de um dia de aventuras e surpresas e dormir profundamente. As vezes esqueço de descansar e então preciso viajar e dormir dias inteiros. Também me lembrou um pouco de A redoma de vidro.

Lya escreve de uma forma um pouco confusa, e eu gosto disso, me lembrou  As meninas, de Lygia Fagundes Telles (que viveu 20 anos a mais). Talvez porque no inicio eu não a conhecia e comecei a imaginar que toda a história era sobre ela e então deveria ter coisas secretas não ditas. Mais tarde no mesmo dia, perguntei a neta e descobri que era tudo ficção, que ela era muito tranquila. 

Aqui algumas coisas que grifei do livro até então.

[...] Livro aberto sem ler. Eu adivinhava que minha mãe não estava lendo, que nem distinguia ao certo realidade e ficção, sem se interessava pelos enredos, misturando tudo. Às vezes, quando ela me pegava olhando-a assim, sorria como se fossemos duas meninas cúmplices de alguma travessura. Um grande segredo, mas eu nunca soube que segredo era aquele.   

[...] Grãozinhos de olhos, bocas. As bocas pálidas que ninguém iria mais beijar.

[...] Uma doida bonita, asseada, mansa, escrevendo e murmurando entre rendas e alfazema. Não fazia mal a ninguém.

– Presunto! – exclamou como se eu estivesse nua na cama.
E, diante do meu olhar desafiador, virou-se e saiu batendo a porta.

[...] A solidão era tão pesada que meu coração ia rebentar, que bom se tudo estourasse feito uma bolha de sabão, um avião explodindo no ar, um corpo de menina batendo nas pedras pretas lá embaixo. [...]

[...] Sempre tivera nojo até de botar a mão em carne crua. [...]

[...] a distinção entre o bem e o mal não era assim tão simples. [...] eu preferia o mal. Mais verdadeiro, pelo menos. [...] E eu nunca me aproximara muito de Deus: medo de descobrir que, em lugar dele, nada havia senão duas velhas caspentas jogando no tabuleiro em que as sombras corriam, saltavam, caíam, devoram-se. A gente acendendo velas, como um desesperado, as bruxas soprando com força. 

Mas Deus não se ligava muito aos meus medos [...]

Momentos roubados, por isso intensos, coração em descompasso, sangue inquieto. Pura vertigem. E a sensação de que tudo tinha de ser rápido, não havia tempo. [...]

[...] Quis morrer de amor aquele instante. Tão bom morrer: porque eu me sentia imortal, podia desafiar a morte.

[...] Ao menor esforço, vou me desfazer em mil pedacinhos [...]

[...] Eu não perguntara, estava entretida amando, vivendo, esquecendo. [...]

[...] como um canibal que devora partes do próprio corpo. [...]

[...] ando sozinha demais, que me deito demais, na rede ou na cama, que penso demais. Pensar tanto faz mal. [...]

[...] deitar-se para sofrer menos, refugiada nas lembranças para não ter que decidir a vida [...]

[...] nunca me faz confidências. [...] fala, ri, passeamos, fazemos compras, mas não penetro no seu quarto secreto. Antes dele há um corredor comprido, escuro, prantos escondidos. Todo mundo com medo. Ela não terá alguém com quer trocar segredos [...]

[...] amado-odiado [...]

[...] com sua cama de cabeceira de cetim branco, sem amante. Eu, no meu chalé cansado e rangedor. Essa veranista, em cima do morro.

[...] Expulsei todo o medo fazendo amor delirantemente. [...]

[...] e então poderia botar a língua para todas as tristezas novas e antigas [...]

[...] Desejo intensamente que ele corra o bastante para escapar de qualquer lance mau.

[...] Como se começa a desacreditar [...]

pictures and paintings

Neste último semestre julguei que merecia um respiro e me matriculei em apenas uma cadeira: pintura. Sei que não é que o que faço de melhor e até considero quando recomendam tirar as pinturas de perto dos outros trabalhos nas apresentações. Eu tenho um pouco de vergonha das minhas pinturas, mas eu amo pintar. Eu amo quando a água ou o solvente mancha o grafite e eles se tornam únicos, eu amo quando a tinta escorre, eu amo deixar tudo aguado e ensopado, eu amo quando a tinta é pesada e densa e eu amo criar os mais lindos tons de rosa do mundo só com magenta, azul e amarelo cadmio e branco titânio. Eu amo me movimentar diante da tela, como em uma videotape de dança e eu amo quando não é o meu dia de mão boa e é preciso repensar tudo ou quiçá, pensar pela primeira vez. 





Isso é o que tenho feito desde que agosto nas duas vezes por semana que tenho aula. Tento sempre fotografar o processo mas quando fica muito ruim deixo passar. Para começar, sempre seleciono um filme que assisti e gostei muito. Dessa vez comecei com Onda Nova (1983), que vi duas vezes no cinema ano passado. É a cena da Rita quebrando o disco do namorado depois que descobre que ele traiu ela (eles eram fervorosamente apaixonados) na volta do programa do Gugu. Outra cena é lá no próprio backstage do programa do Gugu, mas escolhi essa em que tem uma noivinha beijando um cara sem camisa e com todas as jogadoras do Gayvotas. Essa não sei como prosseguir porque a projeção ficou péssima e é tudo muito complexo pra mim que não faço questão da perfeição, por enquanto deixei todos com bocas gigantes de batom, troquei o vestido dela para vermelho (cor nova!) e pretendo seguir com a temática a beijokeira. Essa foi a primeira vez que selecionei dois filmes. O outro é Veneno para as Fadas (1986), aqui peguei muitos sapatinhos fazendo arte. Encerrei com um sapatinho que eu mesma usei (para aprontar!), que é também a primeira vez que faço uma pintura de observação e a terceira vez que pinto num suporte além da tela preparada. 

Eu amo pintar! - ao som de um instrumental baixinho na sala silenciosa do 8º andar do Instituto de Artes, com a tinta escorrendo pelo chão e as mãos sujas. Escolher as minhas banquetas favoritas e por algumas horas pensar só, e somente, em pintura.