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10 centavos

filme: Almost Famous
Os tambores rufavam grotescamente. A câmera pesava em meu pescoço. Antes mesmo de notar a presença deles, Pedro e o menino do cachecol vermelho posaram. Para mim, quando alguém posa é impossível não tirar uma foto. Sinto que se não tirar ao menos uma fotografia mesmo que desfocada, estaria sendo rude e consequentemente alguém ruim. Eles posavam sempre que me viam, e posavam ao fundo enquanto eu fotograva outros rostos. E eu adorava retrata-los, mesmo que desfocados. 

Ao meio dia, encerraram-se as atividades olímpicas. Pedro, o menino do cachecol vermelho e eu fomos a Praça 1, ao lado do colégio. A Praça 1 é um lugar de pouco movimento ao meio dia, esse dia inclusive só havia nós três. Pedro contou-nos sobre o dia anterior, o qual gastou seus dez centavos em uma sacola plástica rasgada dos supermercados Asun, que ele levava no bolso da calça de moletom. Pedro completou dezoito anos na quinta-feira, e agora pode gastar seu dinheiro como quiser. Mesmo assim ele disse que não podia levar a sacola para casa, e pediu ao menino de cachecol para guarda-lá em baixo da cama. 

PS: Essa história talvez seja nonsense demais para alguém que não estava lá, e não sabe o que aconteceu antes ou depois. Mas eu queria deixa-lá registrada aqui por mais que não tenha nada demais.

eu gosto das estrelas como mariposas gostam da luz


ilustração de Carolina Carretto

A primeira vez que acampei é uma das lembranças que me marcam até hoje. Foi numa floresta de pinheiros no inverno. Tudo tinha cheiro de pinheiro, mas o cheiro de verdade, não a essência idêntica ao natural que nunca tem nada a ver com o natural.

Montamos as barracas e fizemos a fogueira antes de escurecer,  perto havia um rio que refletia tudo a sua volta, como um espelho. As barracas eram amarelas como botas de chuva, e sempre que caminhávamos podia se ouvir o farfalhar das agulhas e cascalho que cobriam o chão. Em torno da fogueira, junto de cobertas e troncos caídos, nos sentamos enquanto Thomas tocava em seu violão músicas da Legião Urbana. Alguns de nós conversavam baixinho enquanto outros dançavam em torno do fogo segurando xícaras de porcelana branca com velas acesas.

Eu me deitei sobre um grande xale de lobos ouvindo em frente a lua e contei as estrelas até não saber mais qual seria o próximo número. As velas das xícaras flutuavam na escuridão depois que a fogueira se apagou, até que não sobrou mais nenhuma luz a não ser a do céu.

O calor do sol incomodava meus olhos, e foi isso que me fez acordar. Fui a primeira a levantar e uma das muitas que adormeceram fora das barracas, e achou que aquilo fosse a coisa mais aventuresca do mundo. Sentei na beira do rio com os pés na água gelada, fiz caretas para os pequenos peixes verde-violeta, risquei a terra com um graveto e guardei as mais diferentes folhas e flores num diário de capa púrpura. Traçamos retas paralelas de lama na bochecha, dobramos as calças até os joelhos, corremos entre os pinheiros e rochas, fotografamos todos os animais que vimos e nos escondemos até um de nós achar o outro. Fizemos barulhos esquisitos e comemos muitos sanduíches de alface.

Ia escurecer de novo, mas eu queria viver ali para sempre, eu queria morrer ali para as os pinheiros nascerem sobre mim, para os pássaros pousarem, para encostar as estrelas. Pois eu gosto das estrelas como mariposas gostam de luz.

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domingo

origem

São 14 horas e 26 minutos de um pacato domingo chuvoso. Sentada no tapete que imita padrões persas, ela aprecia os livros e velharias da estante a sua frente, uma menina de cabelos castanhos curtos com cachos graúdos que estrala os dedos repetidamente enquanto curva a cabeça a fim de ler todos os títulos e detalhes. Tem os olhos escuros, e embora alguns digam que pareçam orientais ela tinha certeza que não tinham nada a ver com isso. 

Os longos dedos empurram para frente um livro de capa vermelho escarlate que acaba por cair em sua mão contrária. Ela abre e o cheiro de poeira a faz espirrar. Deitada de bruços no tapete com a roupa que dormira, uma camiseta vermelha com personagens coloridos e uma curta bermuda cinza, a menina lê atentamente a história, esquecendo de tudo que já quisera ser um dia.  

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