049: acidentes

Hoje é dia 15 de abril de 2026 e eu já fui em 7 aniversários, 6 festas de formatura e perdi mais aberturas de exposição do que gostaria, fiquei doente quase uma semana e voltei para minha cidade natal umas 3 ou 4 vezes. Na segunda-feira A. que trabalha comigo, mas em outro setor, me amaldiçoou por andar de bicicleta sem capacete. Eu não tenho capacete, é muito caro e eu sempre gostei de andar de carro sem cinto e de atravessar a rua sem olhar direito para os lados. Faz menos de 4 anos que comecei a ter medo do trânsito e de quão violento pode ser uma batida entre automóveis gigantes e descontrolados. Esse também é o tempo que nutro uma vontade imensa de atravessar a avenida perimetral correndo olhando apenas para frente usando um vestido branco esvoaçante, desejando freadas abruptas e capotas amassadas. Foi esse ano que assisti Crash (1996) pela primeira vez e sai do cinema insatisfeita com a quantidade de batidas e ação que haviam me prometido e foi semanas atrás quando a poucos metros a minha frente vi uma moto batendo contra um ciclista parado que fazia guarda no semáforo e arremessando ele longe.

filme: Crash (1996)

Ontem a noite eu sai para andar de bicicleta como é de todas as terças, o freio de trás estava inútil desde a semana passada e eu prometia para mim mesma que levaria para consertar logo. Nós subimos e descemos lombas o trajeto todo e depois da parada na praça misteriosa, no meio do caminho, eu comecei a me acostumar que deveria frear sempre com a esquerda e foi isso que fiz quando a bicicleta empinou na descida e eu cai de joelhos no asfalto quente. Tudo do lado esquerdo estava pior, mais sangrento e lanhado. Senti como uma cambalhota engraçada em camera lenta mas tudo era muito confuso e difícil de lembrar. Alguém levou minha bicicleta, intacta, para a calçada e eu fui sentar lá também, esperar a dor acalmar. O que me deixava mais aflita era a panturrilha que doía mas não tinha nada e até agora é so uma dor invisível. Semana passada tivemos uma aula sobre amputação, fetiche, membros fantasma e coisas que nem me lembro mais, lemos partes de Fantasmas no Cérebro de Vilayanur S. Ramachandran e Sandra Blakeslee e discutimos essa coisa louca que é sentir algo que não esta mais lá. Então eu cheguei em casa e não conseguia esticar nem caminhar com a perna direta, tomei um banho dolorido e lavei o sangue com água morna. Eu sentia que devia chorar mas não conseguia. Não lembro de sentir toda essa dor quando ralava o joelho na infância ou de imaginar que poderia ser pior, de me sentir diminuta e incapaz. Fui dormir sem falar nada.