050: escrevendo vendada

fazendo as malas de óculos

Estou na minha casa de férias a 12 dias, amanhã volto para o barulho. Adeus tédio, conforto, cabeça vazia, mercado grátis, pia com água quente, secadora de roupas, andar despreocupada pelas ruas, ócio, box de vidro do chuveiro gigante, luzes baixas, Soneca, minha mãe e esperar Pedro vindo do bairro mais longe de todos de bicicleta para assistir filmes escondido no confortável sofá da sala. 


Dia 14 de julho, a outra terça-feira, foi meu último dia de miopia. Fiz cirurgia a laser e quase tudo que li sobre é verdade: não dói, é rápido, cada olho é um olho e a cada dia tudo pode mudar. Hoje estou vendo bem, de perto, de longe está borrado e o pior são as telas luminosas, digitar no computador é torturante. Penso em daqui um mês, quando o epitélio voltar todo ao lugar, e fazer tudo isso não tiver adiantado nada. Coloco rapidamente meus óculos antigos e já me não serve mais, acredito com mais vigor. 

23 de julho
Vivi como madame. Lavei e esfoliei o rosto, protetor solar e gloss de algodão doce. Camisa quase risca de giz e óculos escuros. Experimentei sapatos de vinil. Almocei no melhor restaurante buffet da cidade. Fiz as unhas: vinho cremoso. Comprei ovos caipira e encontrei minha tia (inimiga da minha mãe), me contou fofocas e mil coisas. Revi minha prima que faz 15 anos no próximo mês. Fiz bolo de fubá (deu errado). Busquei as meninas na escola (minhas primas de 10 e 8 anos). Mostrei meus brinquedos de quando era criança, uma videoarte que usei as vozes delas. Encerramos tomando chá e comendo bolo. 


25 de julho
Amanhã vou ver uma peça que quero ver desde o ano passado e o universo nunca deixava. Daqui um pouco mais de um mês vou ir na super festa de formatura da Joana no Clube. Vai ser incrível! Nesse semestre vamos gravar vários filmes, nossa versão do Drácula no mundo das minissaias, o filme do Pedro que é inspirado na minha festa de aniversário, no Gregg Araki, no Caio Fernando Abreu e em toda a galera gente boa zumzum yeahyeahyeah e claro, nas nossas próprias histórias vividas e ouvidas. Vamos organizar mais um festival de videoarte, mais uma edição da zine do amor, mais um amigo secreto de Natal, mais um jantar chique a luz de velas, mais um o que for, Quando eu voltar tudo vai acontecer. 


Na primeira semana de julho eu fiz tudo que deveria ser feito e estava querendo zarpar como um balão sem nó para as férias e todas as belezas do litoral.  Eu apresentei a parte I do meu trabalho de conclusão e me animei com a academia. Esta sendo divertido e misterioso fazer isso. Fui produtora da exposição no Paço que fizemos em uma das disciplinas e meu professor deixou eu dirigir o carro dele por alguns segundos (imagine: eu sentada no carona e sem carteira de motorista [apenas aulas breves e esporádicas com meu pai], meu professor de óculos escuros e todo de preto, três colegas [incluindo minha melhor amiga Joana, que rezava] no banco de trás.

Fui em várias peças de teatro com a Joana. Fizemos uma noite de degustação de drinks para a formatura dela e também fomos numa degustação muito chique com pratos que vinham com cloche (também para a formatura dela). Pedro fez bolo de fubá na minha casa porque ele não tem forno na casa da capital. Fizemos um café da manhã na hora do almoço na segunda-feira porque é quando o Carlos não trabalha no restaurante e o Pedro fez o famoso bolo de chocolate com whiskey e butter toffee. Saímos para fotografar num domingo feio e frio e vimos a beleza das cores. 

Eu tenho medo de a vida não ser doce e acida ao mesmo tempo, das flores murcharem e de chover todos os dias, eu tenho medo de nunca mais poder ver como antes, de perder tudo, de me queimar e me arrepender de coisas que não fiz. 

down down in the high society


Perfumes da Granado, queijos finos, conversas com imaginação, as coincidências, tecidos nobres, sapatinho, livros que ressoam, palavras engraçadas, luminárias e abajures, moveis com desenho, desenhos toscos de grafite, tropicália, cinema novo, frutas e legumes, manjericão, chocolate, som de teclado, piano, jazz, sussuro, sofá, veludo, seda, cashmere, rúcula, Whiskas sachet, beijo, pijama, unhas feitas, vinho, especiarias, camisa branca, meia calça, visita surpresa, ligação de telefone, email, madeira, correio surpresa, presente surpresa, festa surpresa, cachecol comprido, praia, Aperol Spritz, Moscow Mule, cinema, ceviche, quiche, torta, chá, porcelana, moldura, espelho de bolso, sutiã de renda, sacada, varanda, roseira, luz do sol, lareira, óculos escuro, água com limão, acordar sem despertador, amizade, vela, fogo, modelo vivo, banqueta, viajar, gelato, espelho de corpo todo, terraço, escada, não, escadaria, ouvir, anotar, prever o futuro, arriscar, ler em voz alta, contar um segredo, café especial, pintar em tela, carvão, carne assada, o pelo do gato, colchão de mola, lata, poesia, papel, voz aveludada, baú, otomana, lencinho, degustação, premiere, massas, gengibre, gravura, passe-partout, respiro, suspiro, gargalhada, caixa de som, capas, hot yoga, corrida no parque, observação de pássaros, penteado, blush, o tédio. 

049: acidentes

Hoje é dia 15 de abril de 2026 e eu já fui em 7 aniversários, 6 festas de formatura e perdi mais aberturas de exposição do que gostaria, fiquei doente quase uma semana e voltei para minha cidade natal umas 3 ou 4 vezes. Na segunda-feira A. que trabalha comigo, mas em outro setor, me amaldiçoou por andar de bicicleta sem capacete. Eu não tenho capacete, é muito caro e eu sempre gostei de andar de carro sem cinto e de atravessar a rua sem olhar direito para os lados. Faz menos de 4 anos que comecei a ter medo do trânsito e de quão violento pode ser uma batida entre automóveis gigantes e descontrolados. Esse também é o tempo que nutro uma vontade imensa de atravessar a avenida perimetral correndo olhando apenas para frente usando um vestido branco esvoaçante, desejando freadas abruptas e capotas amassadas. Foi esse ano que assisti Crash (1996) pela primeira vez e sai do cinema insatisfeita com a quantidade de batidas e ação que haviam me prometido e foi semanas atrás quando a poucos metros a minha frente vi uma moto batendo contra um ciclista parado que fazia guarda no semáforo e arremessando ele longe.

filme: Crash (1996)

Ontem a noite eu sai para andar de bicicleta como é de todas as terças, o freio de trás estava inútil desde a semana passada e eu prometia para mim mesma que levaria para consertar logo. Nós subimos e descemos lombas o trajeto todo e depois da parada na praça misteriosa, no meio do caminho, eu comecei a me acostumar que deveria frear sempre com a esquerda e foi isso que fiz quando a bicicleta empinou na descida e eu cai de joelhos no asfalto quente. Tudo do lado esquerdo estava pior, mais sangrento e lanhado. Senti como uma cambalhota engraçada em camera lenta mas tudo era muito confuso e difícil de lembrar. Alguém levou minha bicicleta, intacta, para a calçada e eu fui sentar lá também, esperar a dor acalmar. O que me deixava mais aflita era a panturrilha que doía mas não tinha nada e até agora é so uma dor invisível. Semana passada tivemos uma aula sobre amputação, fetiche, membros fantasma e coisas que nem me lembro mais, lemos partes de Fantasmas no Cérebro de Vilayanur S. Ramachandran e Sandra Blakeslee e discutimos essa coisa louca que é sentir algo que não esta mais lá. Então eu cheguei em casa e não conseguia esticar nem caminhar com a perna direta, tomei um banho dolorido e lavei o sangue com água morna. Eu sentia que devia chorar mas não conseguia. Não lembro de sentir toda essa dor quando ralava o joelho na infância ou de imaginar que poderia ser pior, de me sentir diminuta e incapaz. Fui dormir sem falar nada.