Neste último semestre julguei que merecia um respiro e me matriculei em apenas uma cadeira: pintura. Sei que não é que o que faço de melhor e até considero quando recomendam tirar as pinturas de perto dos outros trabalhos nas apresentações. Eu tenho um pouco de vergonha das minhas pinturas, mas eu amo pintar. Eu amo quando a água ou o solvente mancha o grafite e eles se tornam únicos, eu amo quando a tinta escorre, eu amo deixar tudo aguado e ensopado, eu amo quando a tinta é pesada e densa e eu amo criar os mais lindos tons de rosa do mundo só com magenta, azul e amarelo cadmio e branco titânio. Eu amo me movimentar diante da tela, como em uma videotape de dança e eu amo quando não é o meu dia de mão boa e é preciso repensar tudo ou quiçá, pensar pela primeira vez.
Isso é o que tenho feito desde que agosto nas duas vezes por semana que tenho aula. Tento sempre fotografar o processo mas quando fica muito ruim deixo passar. Para começar, sempre seleciono um filme que assisti e gostei muito. Dessa vez comecei com Onda Nova (1983), que vi duas vezes no cinema ano passado. É a cena da Rita quebrando o disco do namorado depois que descobre que ele traiu ela (eles eram fervorosamente apaixonados) na volta do programa do Gugu. Outra cena é lá no próprio backstage do programa do Gugu, mas escolhi essa em que tem uma noivinha beijando um cara sem camisa e com todas as jogadoras do Gayvotas. Essa não sei como prosseguir porque a projeção ficou péssima e é tudo muito complexo pra mim que não faço questão da perfeição, por enquanto deixei todos com bocas gigantes de batom, troquei o vestido dela para vermelho (cor nova!) e pretendo seguir com a temática a beijokeira. Essa foi a primeira vez que selecionei dois filmes. O outro é Veneno para as Fadas (1986), aqui peguei muitos sapatinhos fazendo arte. Encerrei com um sapatinho que eu mesma usei (para aprontar!), que é também a primeira vez que faço uma pintura de observação e a terceira vez que pinto num suporte além da tela preparada.
Eu amo pintar! - ao som de um instrumental baixinho na sala silenciosa do 8º andar do Instituto de Artes, com a tinta escorrendo pelo chão e as mãos sujas. Escolher as minhas banquetas favoritas e por algumas horas pensar só, e somente, em pintura.













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